A POLIFONIA DO DISCURSO
Observe este anúncio, publicado em março de 1997.
MULHERES, ESQUEÇAM
ESSE PAPO DE IGUALDADE
COM OS
HOMENS, POR
ENQUANTO.
Em homenagem ao Dia da Mulher, a Gazeta Mercantil está oferecendo um desconto de 49% na sua assinatura anual. Só para mulheres, só no mês de março. Ligue 0800 14 3000 e faça já a sua assinatura.
(Veja, 19/3/97.)
À primeira leitura, o anúncio parece ser contrário ao discurso feminista, segundo o qual as mulheres devem ser iguais aos homens, tendo os mesmos direitos que eles. Na parte inferior do anúncio, contudo, há o seguinte texto, escrito em letras miúdas: “Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, a Gazeta Mercantil está oferecendo um desconto de 49% na sua assinatura anual. Só para mulheres, só no mês de março”.
Cruzando esse enunciado com o enunciado em destaque, o texto do anúncio ganha outra leitura e um novo sentido: seu objetivo não é combater o feminismo, mas apenas promover a assinatura do jornal entre o público feminino.
Ao fazer referência ao “papo de igualdade com os homens”, o anunciante traz para o interior de seu discurso uma voz que não é sua, mas das feministas que se manifestam socialmente em defesa de seus direitos.
Esse fenômeno é muito comum nos textos. Frequentemente incorporamos em nosso discurso fragmentos do discurso alheio. Por essa razão, dizemos que o discurso é geralmente polifônico (poli = vários; fono = som, voz), já que, além da voz de seu autor, nele costumam ressoar outras vozes, provenientes de discursos alheios.
A referência a discursos alheios pode se dar de forma mais direta ou menos direta.