Uma vez, perguntaram a Luis Fernando Veríssimo o que era inspiração e ele deu a melhor resposta que conheço: “Inspiração é o prazo”. Ou seja, se você precisa entregar o texto a tal dia, tal hora, ele acaba sendo feito. Isso que se aplica a cronista com prazo de entrega em jornais e revistas também vale para os que precisam fazer uma redação para o vestibular, escola, seja o que for.
Sempre me perguntam: existem dicas, existem atalhos? Existem. Façamos uma listinha.
- Se houver chance de saber os assuntos que farão parte da pauta, pesquise sobre eles, abasteça-se. Livros enciclopédias são essências. Quanto melhor dominar um assunto, mais fácil escreverá sobre ele.
- Escolha o ponto de vista. Primeira pessoa ou terceira? A primeira pessoa traz o leitor para dentro do texto, porém o narrador deve participar de todas as situações para poder contar. Consegue fazer isso? A terceira pessoa traz facilidades, você conta como se fosse alguém de fora.
- Deve-se ter uma pegada inicial de impacto, para que o leitor fique preso ao texto até o fim.
- Ao escrever pense que nossa língua é a portuguesa e procure palavras com melhor sonoridade, vibração. Evite a repetição de palavras, busque sinônimos.
- Frases curtas levam a menos erros. Uma frase longa joga o leitor dentro de um labirinto e acaba sendo uma armadilha para você.
- Use a ordem direta. Para empregar a indireta, tem de ser mestre na redação. Não tente malabarismos – o simples diz tudo.
- Não abuse de adjetivos, eles melam o texto. Seja enxuto, direto, econômico nas frases. Escrever é a arte de cortar, dizia o escritor norte-americano Ernest Hemingway.
- Evite o uso de “lhe”, porque destrói a sonoridade do texto.
- Não utilize elementos desnecessários para “enfeitar”. Dizia Erico Veríssimo que, se você criar qualquer objetivo ou paisagem no começo de um texto, eles devem ter umas função mais à frente.
- Deve-se ter um final que surpreenda, provoque espanto. Uma revelação qualquer, uma virada na narrativa, mas que esteja dentro do que você pretendeu.
- Tenha sempre um caderninho à mão e anote tudo, capture assuntos, para o caso de uma redação com tema livre. A vida em torno de nós é cheia de curiosidades, absurdos. Fique de olho.
- Já pensou em “treinar” uma redação? Olhar para uma coisa e descrevê-la. Ler uma noticia de jornal e comentá-la. Ouvir uma conversa e reproduzi-la. Escrever é a arte da prática. Treinando se pega o jeito.
- Leia com atenção cronistas como Rubem Braga ou Fernando Sabino – ainda os melhores. Veja como eles constroem o texto.
- Force a memória. Procure recordações, fatos de sua vida. De repente um deles pode ser usado no texto, enriquecendo, dando sabor.
- A arte de imaginar, de inventar, de fantasiar é bem-vinda, traz poesia, pega o leitor, domina-o. Mais do que isso, só se eu fizer a redação para você.
Por Ignácio de Loyola Brandão*
*Membro da Academia Paulista de Letras e um dos autores mais lidos entre os jovens, Ignácio de Loyola Brandão, 70 anos, publicou 31 livros, entre romances, contos, crônicas, volumes de viagem, infantis e uma peça teatral. Escreve semanalmente no jornal O Estado de S. Paulo e é redator especial da revista Vogue