O Nariz e outras crônicas, de Luís Fernando Veríssimo

Published Abril 6, 2015 by rosangelabastos

Trata-se de um livro muito gostoso de ler, já que as crônicas – cerca de trinta –  sempre são tão prazerosas.

Apesar de divertir, o livro também cumpre seu papel literário, que é o de ser o reflexo da sociedade em que foi produzido, criticando, satirizando, fazendo pensar.

A seguir, um breve resumo, com comentários, sobre as crônicas do livro. Eu diria que trata-se de uma forma de se obter um olhar diferenciado sobre as histórias, principalmente para o leitor ainda não tão habituado às entrelinhas do texto literário. Por isso, a importância da leitura do livro na íntegra não se exclui.

Cornita

Um pai que ao ser questionado pelo filho sobre o significado da palavra “cornita”, prefere inventar do que simplesmente demonstrar sua impotência intelectual.  Mesmo contestado pela professora, o pai afirma a existência da palavra, criando um relatório com toda etimologia dela. Por sim, a professora aceita a resolução do pai.

Seria muito mais fácil se o pai admitisse o próprio erro, mas muitas vezes, perdemos mais tempo criando falsas desculpas, do que apenas aceitá-lo.

Peça Infantil

Uma professora tenta organizar uma peça infantil, porém uma sequência de problemas acontece, as fadinhas querem ir ao banheiro, o pirata quer usar toalha na capa, a Lua quebra uma de suas pontas… Após uma alvoroçada discussão, a cortina se abre para a apresentação a peça.

Nesta crônica pude perceber o desconforto ao trabalhar em grupo, e quanto faz falta um líder eficiente, quando se prepara uma apresentação, como era o caso, estamos sujeitos a uma série de erros, se não houver alguém que mantenha a situação sob controle, tudo pode ultrapassar os limites, como na peça infantil.

Auto Entrevista

Em uma entrevista, o entrevistado responde àquilo que ele quer, nem se quer prestando atenção nas perguntas do entrevistador, por isso o nome, já que a entrevista era tão somente do entrevistado que se tornou uma auto entrevista.

Percebemos esse caso de “auto-entrevista” principalmente com os governantes do país nos debates políticos, quando o candidato faz uma pergunta ao outro, e ele nem sequer ouve, e responde outra coisa.

Minhas Férias

O garoto da família descreve como foram suas férias. O que para qualquer pessoa seria frustrante, para ele é pura diversão. Várias coisas erradas acontecem, como estacionarem no quintal alheio, não conseguir armar a barraca, acampar perto de um rio de cheiro ruim… Mas o menino termina com a frase: “no fim deu tudo certo”.

É notável nesta crônica, que a falta de organização é ironizada, usando da inocência de uma criança ao pensar que aquela foi uma ótima férias, sendo que na verdade os pais apenas não tinham dinheiro para se hospedar e se alimentar adequadamente.

Na Fila

Uma fila é organizada para ver o caixão de Dom Pedro Primeiro, e começa uma confusão na fila já que muitos ali nem sabiam quem ele era, outros estavam lá apenas porque gostam de um velório.

Nesta crônica, vemos a ignorância do senso comum, que participa de qualquer coisa por puro impulso, percebemos também uma crítica ao governo, quando uma das pessoas da fila diz que acreditamos em tanta coisa do governo, que não havia porque não acreditar que Dom Pedro I estava mesmo no caixão, e também quando as pessoas elogiam a obra do viaduto, mesmo ela sendo inútil.

Ela

Um homem toma algumas bebidas no bar, e na hora de fechar, o dono do bar pede para o moço se retirar, mas ele começa a contar sobre um objeto, de uma forma como se fosse humano. O objeto é uma Televisão, que segundo o homem, começou pequena e quase ninguém a via, em seguida ela foi crescendo até que todos da casa se tornassem obcecados por ela.

Há uma forte crítica de como a TV tomou importância na vida das pessoas, ela começou como um mero objeto de distração até que se tornou o móvel principal da casa. Percebemos também uma evidente crítica de como os mais novos, tem sido educado pela televisão, e muitas vezes se tornado dependente dela.

O Mágico

A crônica conta de sobre um mágico, que fracassado com o seu truque de tornar sua assistente em pomba, decide tentar outras profissões, mas acabava sempre fazendo alguma mágica que assustava os clientes. Sua assistente insistia para que ele tentasse outra vez, até que quando ele conseguiu, sua vizinha se assustou e chamou a polícia. Quando retornou para casa, descobriu que sua vizinha havia desfeito de todos os animais, então ele saiu pela rua transformando pombas em assistentes, mas nenhuma era a sua.

É ironizado nesta crônica, a forma com que os mágicos falam e se apresentam em seus shows, como se as mágicas acontecessem não só neles, mas na vida real também, satirizando um romance que supostamente aconteceria entre um mágico de verdade e uma assistente-pomba.

Santinho

Mesmo não sendo o melhor da classe, o menino era bem comportado, e ele retrata de como ficou triste após sua professora chamá-lo de Santinho do Pau Oco, já que não fingia ser um santinho, ele era sim um bom menino. Retrata também da vez em que escreveu uma redação sobre “um menino que não sabia o que escrever na redação” e levou um zero da professora que o acusou de usar a esperteza para se dar bem.

Luís Fernando Veríssimo retrata ocasiões da sua infância, chamando atenção para como professores, principalmente os do primário, são marcantes na vida do aluno, e alguns acontecimentos aparentemente sem importância nenhuma, deixam verdadeiras cicatrizes.

A História, mais ou menos

Nesta crônica, percebe-se uma intertextualidade com a bíblia, no nascimento de Jesus Cristo, a história corrobora com o conto original, mas ele a apresenta de forma original e cotidiana, como se o fato tivesse acontecido há poucos dias atrás.

Passando de forma indireta uma crítica a forma com que as mensagens bíblicas são apresentadas, muitas vezes de forma tão culta, que faz com que muitos pensem nelas como contos entediantes.

Incidente na Casa do Ferreiro

Esta crônica foi feita em forma de teatro. A cena se passa, obviamente, na casa de um ferreiro, e os personagens entram aos poucos criando situações cômicas. O autor brinca com diversos ditados populares, como “Mais vale uma pomba na mão que duas voando”, e “Em casa de ferreiro, o espeto é de pau”, entre outros…

O autor ironiza a forma com que as pessoas usam habitualmente diversos ditados populares no dia-a-dia, mostrando como seria um diálogo feito apenas de ditados.

Os Moralistas

3 amigos sempre viajavam juntos e levavam suas mulheres, sempre jogavam futebol juntos. Quando os amigos souberam que um deles iria se divorciar, tentam convencer o amigo a permanecer com seu casamento. No fim, descobre-se que na verdade, o motivo da persistência dos amigos, era a final de futebol entre casais.

Vemos nesta crônica um reflexo da população interesseira, que só visa o próprio benefício, sem ao menos se importar com a causa alheia. Também percebemos uma crítica aos senadores que aprovam leis sem ao menos se importarem com elas.

Aptidão

Senhor Pacheco é convocado à sala de seu supervisou, mediante a desculpa de que o computador teria feito testes de aptidão com todos empregados para descobrir sua verdadeira vocação. Após o supervisor afirmar que o verdadeiro talento de Pacheco é bistoque de tronas e não entorte de frescos (sua profissão atual), ele manda embora o homem dizendo que precisaria achar um emprego para sua vocação

Percebe-se aqui, que tudo se passa de um fingimento para demitir o funcionário, isso critica ao modo como empresas buscam de todo meio, despedir seus funcionários sem pagar os benefícios que a lei exige.

Os Homenzinhos de Grork

Nesta crônica, uma nave espacial com uma chaminé, cai na Terra, em território americano, embora todos os policiais esperassem grande conhecimento e tecnologia da parte deles, os mesmos eram baixinhos, usavam machadinhas e mal sabiam vogais.

Esta crônica satiriza a forma com que todo mundo pensa a respeito de alienígenas inteligentes e desenvolvidos, ressaltando artifícios de filmes americanos, onde naves espaciais caem apenas lá, e os extraterrestres falam inglês. Os “homenzinhos de Grork” na verdade, são seres que não possuem armas de guerra, conhecimento de vogais e muito menos do funcionamento de uma roda.

A que ponto

Duas mulheres decidem ir ao supermercado e escolherem comprar a última lata de óleo, as duas agarram o produto simultaneamente, como nenhuma das duas cederam, começa uma intensa luta no mercado.

Como sugere o nome, nesta crônica, refletimos sobre até que ponto alguém pode chegar para conseguir algo? Vemos este caso constantemente no mercado de trabalho ou em uma discussão, onde nenhuma das partes cede, e começa um forte desentendimento.

O Homem que vivia anedotas

Um homem conversa com São Pedro sobre como sua vida na terra havia sido cheia de Anedotas, depois de contar diversas histórias trágicas engraçadas, o homem pede para São Pedro um lugar no céu, mas o Santo satiriza dizendo que esta é mais uma anedota, já que um maremoto invadiu Copacabana e o céu lotou.

No começo da crônica, a conversa aparenta ser entre um psicólogo e seu cliente, apenas na parte final descobre-se do que se trata. Vemos aqui como as pessoas exageram em suas explicações para convencer alguém, contando fatos tão trágicos que se tornam ironicamente engraçado.

O Estranho Procedimento de Dona Dolores

Dona Dolores é matriarca da família, tudo normal até que ela resolve fazer propaganda de todos os produtos que estava usando, a família acha o comportamento incomum, mas acreditam que é o stress.

Muitas vezes somos tão submetidos a merchandising, em filmes, novelas, comerciais, programas… Que a informação sobre o produto se torna cotidiana em nossa vida. Nos tornando dependentes daquilo oferecido direta ou indiretamente.

Artes Marciais

Neste caso é apresentado mais uma arte marcial em meio ao karatê, kung-fu… Neste método chamado de Borra-dô, o aluno é apresentado a 4 fases: – Mulher, – Cobra, – Galinha e – Rato, cada uma delas é utilizada uma habilidade especifica.

Existem diversas críticas espalhadas na crônica, percebemos isto logo na comparação da Mulher com os demais animais, criticando a forma com que as mulheres gostam de falar, na fase da Cobra notamos que algumas características se assemelham a características humanas, levando a pensar que certas pessoas são como cobras, além das críticas às próprias artes marciais.

Bobos I

Conta sobre um reino que necessitava de um bobo da corte, já que último havia sido decapitado por uma piada “malfeita”. Um novo bobo foi chamado, e lhe foi entregue uma série de assuntos dos quais ele não podia satirizar. Mas em uma piada sobre peixes, foi mal interpretado pelo rei, e acabou sendo preso.

Há uma forte crítica a censura do humor, que tem feito com que vários comediantes atualmente sejam processados por piadas mal interpretadas.

Relógio Digital

            O pai caminha com seu filho e o colega dele enquanto fala sobre sexo, após uma explicação do assunto, os meninos começam a questionar sobre assuntos diversos, como buracos negros, supercondutores e relógio digital. No fim os garotos entendem que como o pai só respondia perguntas sobre sexo, ele havia se especializado nisto.

É satirizada a forma com que os pais se orgulham ao saber de tanto sobre sexo, sendo que ele não sabia nem sobre o funcionamento de um relógio digital.

O Povo

O autor sugere uma série de críticas ao povo, retratando sobre como ele é miserável e sobre como as coisas seriam mais felizes sem “o povo”, esta ideia prevalece até o fim, quando ele afirma que o povo deveria ser eliminado.

Podemos observar nesta crônica, o empecilho que é o povo na nossa vida, mas é importante ressaltarmos que quantas coisas não existiriam sem “o povo”, seria divertido viver em uma sociedade solitária, com apenas chefes governamentais, mas ninguém a quem eles podiam governar? Então, o povo é mal ou necessário?

Critério

Após um naufrágio de um transatlântico, as pessoas discutiam sobre quem deveria ser sacrificado primeiro no caso de escassez de comida, os magros sugeriram os gordos, os pobres sugeriram os ricos… Enfim, o barco salva-vidas tomba e devora todos se distinção.

Geralmente, ficamos tão indecisos sobre que decisão tomar que o tempo passa, e se ninguém tomar uma atitude, todos serão prejudicados.

Vida em Manchetes

Dois colegas discutem sobre como fugir da morte, então um decide ficar em casa, cortar a luz, ir morar no campo… Mas acaba descobrindo que não há modo de “fugir” das diversas formas de morrer, então a única solução visível seria suicidar-se.

Existem pessoas que são tão neuróticas com notícias de morte, que deveriam se esconder de tudo e de todos, já que existe perigo em todo lugar, e não há como “fugir” deles, mas sim tentar evitá-los de modo normal.

Ponto de Vista

Um político retrata seu ponto de vista a respeito de Nepotismo, afirmando que isto não é crime, já que Nepotismo está presente desde os tempos antigos quando Deus escolheu seu próprio filho para morrer na cruz.

O autor tenta mostrar um outro ponto de vista a respeito do Nepotismo, mesmo criticando justamente este assunto. Mostrando até que ponto chega um parlamentar ao escolher seus parentes no comando de cargos importantes.

O Homem Sitiado

Conta a vida de um homem que viveu sempre preso dentro de casa, com medo do que a vida externa podia lhe oferecer, adorava ler romances e dependia quase totalmente de sua empregada, até que um dia a mesma não o encontrou mais. O homem estava vivendo dentro de um romance inglês, desfrutando de todo seu conforto, mal sabia ele que as traças estavam a ponto de devorar o livro inteiro.

Mesmo que tentássemos fugir de nossa vida entediante, ainda sim haveria problemas com os quais deveríamos nos preocupar.

O Nariz

Um dentista respeitadíssimo, resolve utilizar uns óculos com nariz postiço, em pouco tempo toda sua vida, família e emprego desmoronam, já que todos o tratam como louco. No fim, a crônica pergunta ao leitor se o homem deveria continuar usando “O Nariz”, ou se importar com a opinião alheia e tirá-lo.

Qualquer um que tente ser diferente do “padrão”, será satirizado e julgado pelas pessoas, o simples fato de usar um nariz postiço foi motivo para causar um colapso em toda a vida do dentista, e é visível a crítica ao modelo imposto pela sociedade.

O Gigolô das Palavras

Nesta crônica, Veríssimo descreve um acontecimento, do qual alguns alunos foram o entrevistar sobre a importância do estudo da Gramática. Ele nos conta, o que é dispensável e indispensável na língua portuguesa. Luís Fernando Veríssimo de compara a um Gigolô das Palavras, que vive às custas das palavras, mas não é tão aplicado a ela.

Veríssimo critica ao modo com que pessoas se preocupam tanto com a origem e significado das palavras, que esquecem de apenas respeitar o esqueleto indispensável da língua portuguesa.

Sementinhas

Maurício pergunta a sua professora sobre “sexo explícito”, a professora desconfiada desta situação, já começa explicar sobre sexo às crianças, até que Maurício explica que na verdade queria falar que passarinhos fazem sexo “expíucito”.

É retratado nesta crônica a inocência de uma criança, que queria apenas contar uma piada, e a malícia adulta que já começou a explicar sobre “sexo explícito”

Defenestração

Luís Fernando Veríssimo brinca com o significado da palavra “defenestração”, dizendo tudo que ela poderia ser, após descobrir seu real significado, questiona qual o motivo de existir uma palavra para designar o ato de jogar alguém ou algo pela janela.

Nesta crônica, Veríssimo tenta nos mostrar como existem várias palavras, que pela nossa ignorância muitas vezes não buscamos seus significados e suas origens. Deixando uma dúvida sobre o real sentido daquele significado.

Evolução

Já dizia a bíblia que os fracos herdarão a Terra, mas nesta crônica, esta frase é aplicada de outro modo. Pensando que em um futuro não tão distante, pessoas que já estão acostumadas à miséria não se importaram quando não houver carros, nem alimentos, dizendo que os pobres de hoje, darão gorjetas aos executivos de hoje.

Corrente de Santo Eurides

Trata-se de uma corrente, criada aparentemente pelo próprio Luís Fernando Veríssimo, o mesmo retrata situações que aconteceram com as pessoas que aceitaram a corrente e com as pessoas que recusaram a corrente, por fim, ele diz para repassar a corrente junto com um cruzeiro, e pede para que uma destas pessoas seja ele, já que quer ir para Europa de cruzeiro.

Veríssimo usa de um desejo seu de ir à Europa em um Cruzeiro, e produz uma “corrente” esperando que alguém lhe presenteie com alguma, vemos aqui uma crítica às diversas correntes criadas por internautas, sendo que o único beneficiado seria o próprio criador da corrente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: