CRÔNICA : TRIÂNGULO AMOROSO

Crônica: Triàngulo Amoroso

Leia a crônica inteligente de Antonio Brasil

Num triângulo retângulo, a hipotenusa, vaidosa e volúvel, passou a não dar mais atenção aos catetos. Menosprezava-os e dizia repetidamente que os iria deixar: que estava farta daquela situação monótona e sem perspectivas, e que iria buscar outras geometrias e aproveitar melhor seus atributos lineares em outras dimensões.
E começou a flertar com todo e qualquer segmento de reta que cruzasse seu traçado, esquecendo-se da relação fiel que deveria manter com os amigos catetos.
E como fazê-la entender que eles eram a sua definição, sua razão de ser? E ela, a deles; era-lhes a essência: sem ela perderiam a identidade de catetos.
Mas qual! A vaidosa hipotenusa foi em frente e se aventurou em flertes com polígonos de segmentos vigorosos, trapézios de linhas musculosas, que faziam a tolinha suspirar, entregue a vórtices (e vértices) de acendida paixão. Enlevada, ela não se dava conta de que polígonos também têm lá suas bissetrizes e diagonais (ciumentas), e de que os trapézios geralmente não se relacionam com “elementos estranhos à família dos paralelogramos”. Sem falarmos de um certo polígono que a nossa aventureira “deu em cima”, sem saber que ele era comprometido com uma dominadora circunferência na qual estava irremediavelmente inscrito.
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O pobre cateto menor, o mais queixoso, desabafava ao maior: “Vê a ingrata! Nos deixar na mísera condição de semi-retas… Não temos um ponto onde terminar nosso traçado… Isso não lhe traz certa inquietação? Ah! Se, pelo menos, nos separássemos e cada qual seguisse suas tendências!… Por esses planos por aí deve haver muita circunferência desiludida, carente de um diâmetro que a sustente nos eixos! Poderíamos formar outras parcerias, meu amigo…”
E se lamuriava com o companheiro todo dia… Até que um desses, inopinadamente a hipotenusa voltou. Cansada de tanta busca e por não caber em nenhuma outra forma, envergonhada resolvera procurar pelos dois ex-catetos, ora semi-réticos… E abriu-lhes o coração, propondo voltar à forma antiga. De novo comporiam aquele harmonioso (se bem que escaleno) triângulo que tanto tinha dado certo…
Os dois, ante essa proposta, reservadamente confabularam e, embora a achassem um pouco gorda e além das medidas, resolveram que lhe iriam dar nova chance. Afinal – pensavam – ruim com ela, pior sem ela! (na verdade não sabiam fazer mais nada na vida a não ser “ser cateto”). E lhe deram o espaço que pedia.
Ela, feliz, se enquadrou e o triângulo de novo se formou (para alívio do cateto menor…).
E viviam, assim, uma vidinha calculada e metódica, quando um dia foram notados por um jovem sábio que estava se iniciando nos cálculos. Um tal de Pitágoras…

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