Escritores da Liberdade – O filme –

ESCRITORES DA LIBERDADE” E AS GANGS NA ESCOLA

 

 

Por: Raymundo de Lima

Há muitos filmes americanos sobre escola, mas não como “Escritores da Liberdade (Freedom Writers, EUA, 2007). Porque ele é ousado tanto na liguagem cinematográfica como na abordagem dos problemas sócio-culturais da escola contemporânea. També,, porque dá visibilidade aos grupos informais e gangues, com seu narcisismo da recusa e intolerância, boicotam as aulas e estão prontos para aumentar os índices de violência entre os jovens e transfromar a escola no seu avesso, isto é, a barbárie.

O filme é baseado na história real de Erin (interpretada por Hilary Swank), uma professora novata a fim de lecionar Língua Inglesa e Literatura para uma turma de adolescentes resistentes ao ensino, alguns estão ali como condenados pela justiça, e todos são reféns das gangues avessas a instituição que propõe civilizá-los. Como em outros filmes sobre turmas problemáticas, a professora Erin adota um método de ensino ousado que vai além do trabalho em sala de aula, ligando a ideologia que orienta a conduta das gangues em sala de aula à “grande gangue” nazista, que conduziu o holocausto e a 2ª.guerra mundial. O holocausto dos judeus (ou “genocídio”, que fará parte do Direito Internacional), não foi uma simples exclusão, mas sim, um ato racional de eliminação de seres humanos em escala inimaginável.

 O método da jovem professora  – baseado numa experiência real – consistiu de entregar para cada aluno um caderno para que escrevessem, diariamente, sobre aspectos de suas próprias vidas, desde conflitos internos até problemas familiares e sociais. Também, instigou-os a ler livros como “O Diário de Anne Frank”, que eles poderiam encontrar personagens e situações parecidos com suas vidas, poderia ter o propósito de eles desenvolverem a atitude de tolerância para com o outro. Os diários foram reunidos em um livro publicado nos Estados Unidos em 1999.

O estilo de Erin é de uma professora em início de carreira: tímida a princípio, mas curiosa, e determinada a evitar que seus alunos façam parte de um novo “ovo da serpente” do nazi-fascismo. Os judeus novaiorquinos diriam que o diferencial de Erin é ela ter “chutzpah” ou ousadia, garra, determinação, toma iniciativa, vai-à-luta. Seu estilo não é teatral, tal como os professores protagonistas dos filmes “O triunfo”, “Sociedade dos poetas mortos”, “Escola da vida”. Também não é autoritária, e nem experimentalista, como é o professor Ross do filme “A onda”. Seu estilo pessoal se confunde com o método que emprega no seu ensino: reconhece o grupos narcísicos, sente empatia com os excluídos, e devolve sua observação, sentimento e pensamento crítico fazendo-os também reconhecer, sentir e pensar sobre a realidade criadas pelos próprios, bem como cobra-lhes responsabilidade por suas escolhas e seus atos de exclusão. Sua ação pedagógica é inovadora, porque desperta a motivação para os alunos para reconhecer, ler, sentir, pensar, escrever, mudar.

 Na concepção de Hannah Arendt, as causas da crise da educação de nossa época podem ter relação profunda com a incapacidade de levar os alunos para pensar, e também a  perda da autoridade (dos pais e professores), fazendo com que as crianças e adolescentes fiquem sujeitas à tirania de uma maioria qualquer, ou de um líder carismático ou populista. Portanto, o ato “eminentemente ensinante” de Erin é mesmo tempo educativo, político e ético, porque visa transformar seres, alunos, “não-pensantes”, “incivilizados”, “não-humanizados” em seres humanos que se comprometem exercitar o pensamento crítico sobre a realidade, sabendo melhor calcular seus gestos e palavras para evitar magoar o seu próximo como para contribuir para uma convivência civilizada. Uma educação que não exercita o ato de pensar, com todos os seus riscos, têm como efeitos a própria ausência de pensamento, e o não tomar decisões ou não se responsabilizar por elas. É preciso, portanto, criar dispositivos que “operem como obstáculo para que aqueles que não se decidiram a ser maus não cometam maldades”(CORREIA, A. 2007, p. 50). Conforme diz Arendt: “os maiores malfeitores são aqueles que não se lembram porque nunca pensaram na questão, e, sem lembrança, nada consegue detê-los […]. O maior mal não é radical, mas possui raízes, e, por não ter raízes, não tem limitações, pode chegar a extremos impensáveis e dominar o mundo todo”, como foi a trágica experiência dos regimes totalitários, o nazi-fascismo e o stalinismo.Para alguns é insuficiente o(a) professor(a) apenas “fazer sua parte”, visto existir um mundo para além dos limites de sua sala e da escola. Mas, a lição da professora do filme está em superar os obstáculos com ousadia, sensibilidade, e senso de inovação, ainda que pague o preço da incompreensão e das críticas maldosas; no fundo, recomenda que não devemos ser reféns de uma crítica retórica ao sistema, e ficar esperando que o governo ou dono de escola tomem iniciativa ou nos autorizem a um ato que inove o ensino escolar.

 Que cada professor(a) faça diferença no seu ato de ensinar. O ensino visa levar os alunos aprenderem os conteúdos programados pelos currículos. Contudo, não se pode ensinar sem demandar também uma mudança educativa. Um ensino sem educação para o pensar é vazio de sentido prático e existencial. Uma educação sem aprendizagem dos conteúdos também é vazia e tende a degenerar em retórica moral e emocional. Ensinar e educar implicam ao mesmo tempo em responsabilidades: pedagógica, política e moral, dentro e fora da escola; implica, ainda, na responsabilidade do coletivo do professorado de civilizar a nova geração que irá povoar o mundo. “A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para expulsá-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum”, escreve Arendt. Qualquer pessoa que se recuse a assumir a responsabilidade coletiva pelo mundo não deveria tomar parte na sua educação.

 Enfim, “Escritores da liberdade” demonstra que, apesar dos poucos recursos dos estabelecimentos de ensino tanto nos EUA como no Brasil, e as resistências às inovações pedagógicas, é possível o professor “fazer a sua parte” criando no aluno o hábito de pensar, ler, escrever, e ser empático para com os outros. O sonho de liberdade deve passar pelo ato de aprender a pensar sobre a relação entre a vida subjetiva e coletiva e o mundo.

  

 

 

 

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