Os meninos da Rua Paulo, Ferenc Molnár, Trad. Paulo Rónai – Estudo da obra

Os meninos da Rua Paulo

A Pál utacai fiúk
Ferenc Molnár
Primeira edição: 1907
Primeira edição em português: 1952

Tradução de Paulo Rónai
Revisão de Aurélio Buarque de Holanda
Ilustrações: Tibor Gergely
Posfácio e notas Nelson Ascher
São Paulo, Cosac Naify, 2005, 264 páginas, 31 ilustrações.
4ª reimpressão, 2009.

Comentários de
Luiz-Olyntho Telles da silva

O tempo (aiôn) é uma criança, criando,
jogando o jogo de pedras; vigência de criança.
HERÁCLITO, Fragmento 52.
Artigo 4; § único:
O homem confiará no homem
como um menino confia em outro menino.
THIAGO DE MELLO, Estatutos do homem.
A primeira coisa a dizer-lhes, é a dificuldade para elaborar os comentários para este texto. Como disse meu amigo Caon, em uma carta, neste romance a sensibilidade estética predomina quase sempre sobre a racionalidade. É um livro construído sobre o conceito da puer eternus e, por isso mesmo, está sempre a despertar a criança que habita em nós, emocionando-nos a cada página e embargando-nos a escrita. Enfim, deixar a infância nunca é fácil. Há que passar pelas dificuldades.

Comecemos pela tradução. O que primeiro chama a atenção é justamente o tradutor e o revisor. Dois nomes da maior relevância para a cultura brasileira. Paulo Rónai, um intelectual, nascido na Hungria, e que, depois de ter aprendido o português (entre outras línguas), encontrou em nossa terra um lugar para viver e trabalhar, e Aurélio Buarque de Holanda, autor de um dos mais importantes dicionários de nossa língua. Seus nomes são, por si só, um aval ao lindo livro de Ferenc Molnár.

No posfácio de Nelson Ascher encontramos muitas referências tanto ao autor, quanto ao tradutor. Contudo, sinto a necessidade de dizer algo mais sobre Paulo Rónai. A atividade de tradutor parece ter sido para ele um sacerdócio, traduzindo tanto os autores húngaros para o português, como os brasileiros para o húngaro. E digo sacerdócio porque seu trabalho me evoca o de São Jerônimo, tradutor da Bíblia, desde o aramaico e o hebraico para o latim.

Traduzir é sempre uma arte e um risco. Encontrar a palavra certa para dizer o que se quer expressar, já é difícil; transpor essa palavra da língua do Outro, mais difícil ainda. Exercício difícil, porém fundamental para o conhecimento das diferentes culturas. Quando Jocachim du Bellay – um dos principais organizadores do grupo conhecido como Pleiade, na França –, retorna de sua viagem à Itália, no século XVI, impressionado com a já corrente locução Traduttore, tradittore (que alguns dizem só valer para a língua italiana), passa a afirmar que Les mauvais traducteurs seraient nommés traditeurs. Talvez seja verdade, quem traduz trai, mas não se pode esquecer que só se trai a quem se ama; fora desse contexto que sentido teria a traição?! E mais, se a palavra é sempre difícil, sua contrapartida, o silêncio, sugere impotência. Ana Cristina Cesar, que foi estudar tradução na Inglaterra, achava que na tradução da poesia se pode chegar a uma boa aproximação, como mostra na tradução do soneto de Mallarmé, Salut, traduzido a tantas outras línguas, inclusive ao português por Augusto de Campos, como Brinde.1 O que ela diz do poema curto, no meu entender vale também para a prosa. Octavio Paz dizia que a atividade poética nasce do desespero diante da impotência da palavra, e finaliza com o reconhecimento da impotência do silêncio.2 Para Borges, no lugar da Übersetzung, da tradução, poderia haver Umdichtung, uma espécie de urdidura, de trama de um poema a partir de outro, e o irmão de Agusto de Campos, Haroldo, falava, no lugar de tradução, em transcriação. – O que não se pode, é deixar de conhecer e de dar a conhecer o trabalho do Outro.

Sobre os meninos

E aqui estamos com Os meninos da rua Paulo. Meninos, ou rapazes? Qual a melhor tradução para fiuk? Viram que se para o título a preferência recaiu em meninos, no interior do livro, contudo, encontramos muitas vezes a opção por rapazes? E no nosso próprio português, temos de reconhecer que esta distinção não é tão fácil! Quando um moço ainda não está completamente formado, muitas vezes dizemos rapazinho, não é mesmo? E se um púbere se destaca pela maturidade já podemos dizer-lhe um rapaz.

Aqui, em um primeiro plano, estamos às voltas com uma idade de formação dos caracteres, estamos em uma idade de transição. São dois grupos de meninos que gostam, como todos os meninos, de jogar bola. Estes jogam pela. Pela se joga com raquete e pela, e pela outra coisa não é do que uma bola.3 Não há quem não goste de uma boa pelada! Um dos grupos está identificado pelo betume, uma palavra pouco usada por nós para identificar a massa de vidraceiro, e só a ideia de mastigar essa massa, uh! arrepia-me os dentes. Mas é assim que eles mantêm a massa bem sovada, aliás, uma obrigação do Presidente, e um presidente que mantém vivos os símbolos do seu povo… Um sonho! O outro grupo está identificado pelo local de reuniões, o jardim botânico, os botanius kertje fiuk, e por suas camisas vermelhas.

Como sempre, deseja-se o que não se tem! E os meninos do Jardim Botânico, embora tenham uma bela ilha, com ruínas antigas e tudo, não têm um chão para jogar pela. Mas não é só isso, estes meninos, da capo, como todos os meninos, parecem ter uma tendência a gostar do que os outros têm.

O alvo da disputa é uma quadra para jogar pela, mas até chegar lá, o autor vai, digamos assim, preparando o terreno.

É preciso gostar do que se faz e valorizar os detalhes. Os meninos frequentam o ginásio, que hoje chamamos segundo grau. E escrevia-se ainda com penas descartáveis (p.18). Foi só quarenta anos depois, em 1937, que outro húngaro, Laszlo Szose Biro,4 inventou a caneta que não precisava ser molhada no tinteiro. Embora essa invenção (da caneta Bic), tenha se difundido muito rapidamente, eu mesmo ainda usei estas penas, em meus tempos de colégio. Lembro bem. Para usá-las, havia todo um ritual: usávamos penas Mallat, feitas de aço, suponho, mas havia também as douradas, um pouco mais caras, da marca Urânia, e algumas exigiam que se as raspasse um pouco, antes de usar, para funcionar melhor. Contudo, devo lembrar, nem todos estiveram logo de acordo com esta maravilha. Nietzsche, por exemplo, não estava de acordo: as pausas para molhar a caneta eram imprescindíveis para elaborar o pensamento.

Terminada a aula, o primeiro episódio: a venda de torrones pelo Italiano. A primeira lição é esta: é preciso negociar. Quem não sabe negociar, sempre perde! Quando Walt Disney reescreve a história de Pinóquio, ele introduz um personagem parecido, ainda que às avessas: Stromboli, aí, é um cigano, um magiar, provavelmente um húngaro que fala italiano e que pretende ganhar muito dinheiro mostrando o extraordinário Pinóquio no palco. Na história de Collodi, os vilões são outros. – É como se Molnár, por meio de um calembur, dissesse assim: quem quer negociar terrenos tem que primeiro aprender a negociar torrones!

O episódio seguinte, embora tenha acontecido antes da especulação sobre o preço dos torrones, só é relatado quando – de volta do colégio –, já estão quase em casa: o einstand das bolinhas de gude.

Os meninos do Jardim Botânico apareceram, fizeram einstand e apoderam-se das bolitas dos da rua Paulo.

No meu colégio, quando menino, embora proibido, também tinham os colegas prevalecidos que faziam einstand – chamava-se rapa. Anunciavam rapa, e levavam tudo; os que se opunham, apanhavam. É assim em toda a parte! Algo da submissão está em jogo nesse einstand. E aqui, nesse romance (pp.33 e 123-24), o dispositivo é usado para mostrar o estado de beligerância entre os dois grupos. O episódio dos possantes irmãos Pásztor contra os pequenos Nemecsek, Richter, Barabás e Kolnay representam aqui a arrogância, desde os filisteus contra os soldados de Israel,5 até a prática do bullying nas ruas de hoje, e é também, ao mesmo tempo, um hino à inteligência frente a força bruta.

Esta brincadeira, o jogo com bolinhas de gude, é muito antiga. Existem relatos desta brincadeira desde o antigo Egito. Gude vem do minhoto gode, uma pedrinha arredondada e sem muitas arestas. É um brinquedo próprio de crianças e adolescentes que se arranjam para jogar com o que podem. Antes das bolitas de vidro, tão comuns hoje em dia, brincava-se com o que estava ao alcance da mão, pequenos frutos, pedrinhas, nozes. Na oitava écogla das Bucólicas, Virgilio diz que, uma vez casado, o marido deve distribuir seus brinquedos: sparge, marite, nuces (v.31). É daí que a expressão nuces relinquere (deixar as nozes) adquiriu o sentido de deixar a infância em direção à maturidade. Molnár encontrou aí uma metáfora do difícil dessa transição; alguns dão a vida para sair da infância. Outros a perdem por não poder sair dela! Verdade que o nome de Golias, o filisteu vencido pelo querido Davi, tem também o sentido de passagem!

E, de passagem, os meninos experimentam rapé (p.34), um must das nobrezas da época! Um ato próprio desta idade curiosa. Hoje, a curiosidade é por outros pós, os quais, por si só, equivalem-se ao inofensivo rapé, mas que, aliados a insegurança social e política de nosso tempo, tornam-se, nas mãos das raposas inescrupulosas, potentes instrumentos de alienação.

O relato do einstand das bolitas, fica claro, é só um subterfúgio para introduzir a disputa pelo grund. O capítulo 2 (de um total de 10) é dedicado à descrição deste pedaço de terreno de fundos, do grund.

Para entendermos a transcendência desse termo, é preciso entrar um pouco na história da Hungria, da Magyarország, da terra dos magiares, da terra dos ciganos, e de sua língua. Povoada pelos ilírios e trácios, desde o ano 500 a.C., sofreu inúmeras invasões ao longo dos anos, e, como soe acontecer, todas estas culturas deixaram um resto na língua húngara, aos quais se somaram a influência dos vizinhos. Tendo aparecido como língua literária apenas no século XVI, reconhecem-se nela influência turca, da caucasiana osseta, além das línguas eslava, alemã e do latim. Grund é uma dívida com o alemão. Ao contar a disputa pelo grund, Molnár está contando a interminável disputa por sua terra.6 Tal como em alemão, grund é um termo de largo espectro e conota fundo, solo, terreno, terra, vale, sedimentos, precipitação, fundamentos, base, razão, argumento, motivo, causa. Esta é uma característica das línguas antigas, a ampla conotação das palavras, algo assim com fazem as crianças pequenas, por exemplo, ao estenderem o vocábulo au-au a todos os bichos de quatro patas. Enfim, todas essas influências fizeram do húngaro uma língua difícil, uma língua – emprestando uma expressão usada por Chico Buarque no seu Budapeste – uma língua que até o diabo respeita.

A língua, até certo ponto, pode (e deve, eu diria) ser considerado um bem nacional. Se vários países falam a mesma língua, como é o caso do português (a sexta língua mais falada no mundo), isso não lhe tira as particularidades da enunciação em cada lugar. Nesse sentido, a língua é também um grund, motivo pelo qual muitos estamos em desacordo com esta unificação artificial da língua portuguesa. É com a língua de cada país que seus cidadãos, e os filhos dos cidadãos, perguntarão quem são, de onde vieram e para onde vão, e precisamos cuidar dela, constantemente, porque tanto melhor estruturada a língua, mais fácil será estruturar as questões!

A influência de outras culturas na língua é como a influência sofrida pelo escritor por suas leituras. Quando o cachorro do Eslovaco recebe o nome de Heitor (p.40), por exemplo, podemos pensar em uma alusão à Ilíada de Homero: Heitor foi o melhor dos homens, o mais correto como cidadão, marido e guerreiro! Nelson Ascher, em seus comentários, lembra também da luta de Nathaniel Hawkeye, o último dos moicanos, na disputa da costa leste da América do Norte por franceses e ingleses. Todos lutam por um grund. Nós mesmos, os intelectuais, quando trabalhamos com conceitos, costumamos defender acirradamente nossa interpretação dos mesmos, principalmente quando trabalhamos com conceitos fundamentais, quando trabalhamos com os grund begriefen.

Os meninos da rua Paulo, é preciso ressaltar, tinham uma notável consciência política – registre-se que a história se passa no ano de 1889. Ainda que o nome de Napoleão seja mencionado mais de uma vez ao longo do texto, seu herói verdadeiro era ninguém menos que um dos líderes da revolução de 1848 em prol da independência do império austríaco, dominado pelos Habsburgos: Sándor Petöfi. É de um poema de Sándor Petöfi o lema inscrito na bandeira dos Pál utacai fiúk: Juramos não ser mais servos. Quarenta anos depois da revolução, seu espírito continuava vivo e a lembrança do poeta continuava adorada pela juventude. Sándor Ferenczi, um dos primeiros discípulos de Sigmund Freud, que na data de nossa história tinha por volta de dezesseis anos, uma idade muito próxima dos nossos pequenos heróis, também adorava seu xará, conforme contou a Freud. No seu A psicopatologia da vida cotidiana, no capítulo dedicado aos lapsus linguae, a lembrança de Ferenczi é assim relatada: Em meu primeiro ano de Gymnasium, eu, pela primeira vez na vida, tive de recitar um poema em público (i.e. diante da classe inteira). Estava bem preparado e fiquei atônito ao ser interrompido, logo no começo, por uma gargalhada geral. O professor logo me explicou o motivo dessa estranha reação: eu dissera corretamente o título do poema, Aus der Ferne [Da Distância, De longe], mas, em vez de atribuí-lo a seu verdadeiro autor, indiquei meu próprio nome. O nome do poeta é Alexandre (Sándor [em húngaro]) Petöfi. A troca foi favorecida pelo fato de termos o mesmo prenome, porém, indubitavelmente, a causa real foi que, naquela época, eu me identificava em meus desejos secretos com esse famoso poeta-herói. Mesmo conscientemente, meu amor e admiração por ele beiravam a idolatria. Por trás desse ato falho, é claro que se encontra também todo o lastimável complexo da ambição.7

Se as guerras buscam o bem comum, parece não haver como retirar delas o sempre presente interesse pessoal. E surge a traição de Geréb! Seu motivo pessoal: a necessidade de reconhecimento. Repararam como os pais são praticamente ausentes nesta história. Pelo teor do conto, contudo, não diria que os pais desses meninos são figuras ausentes de suas vidas; pensaria antes que estes pais, de modo geral, dão espaço para o desenvolvimento dos filhos. Quando é preciso, eles aparecem! Aparece o pai de Nemecsek, o alfaiatezinho que faz o que pode, e aparece o prepotente e rígido pai de Geréb, honesto, porém distante. E tem também o dedicado professor Rácz, embora seu trabalho de pouco adiante se seus ensinamentos não são reforçados, em casa, pelos pais. É movido por um engano que Geréb recorre aos inimigos, no Jardim Botânico e, uma vez reconhecido o engano, faz de tudo para se recuperar – a intervenção paterna não há de ter sido sem consequências! Suponho, a propósito, que ainda estejam lembrados do desentendimento que levou à morte de um jovem de quinze anos, no bairro Humaitá, ainda na semana passada, por outro rapazinho de quatorze. Como lhes dizia, na passagem pela adolescência, não poucos perdem a vida ou a chance de uma boa passagem por este importante período de aprendizagens. O rapazinho do caso Humaitá, o atirador, como foi denominado pelos jornais, disse usar armas para se defender dos traficantes, mas acabou usando a arma como os bandidos, e a polícia, que em geral não se deixa enganar, logo captou a ligação desse jovem com o tráfico. É bem possível que a leitura da polícia esteja certa, mas o que diários não noticiaram foi se a polícia considera os motivos desse envolvimento, provavelmente uma necessidade de identificação e reconhecimento. E da jovem vítima, que não encontrou valor no apelido despectivo de baleia – para nos mantermos coerentes à linguagem de Bullying –, temos de lebrar que era um fatherless boy, fato que não há de ser sem importância no caso.

O episódio da traição de Geréb tem ainda outra importância, talvez mesmo fundamental, grundbedingung, para compreender a estrutura do romance. Trata-se da alusão, na carta-pedido-de-perdão que Geréb envia ao General João Boka, de um romance de Júlio Verne, O arquipélago em chamas, de 1883. Júlio Verne, que publicara seu primeiro romance de aventuras, Cinco semanas em um balão, em 1863, estava de moda. Verdade que se Geréb confessa ter ganhado de presente o desejado livro, confessa também que o passara, como presente de reconciliação, a Nemecsek sem lê-lo. Pois aí está, se temos de recorrer a Júlio Verne, para compreender um pouco melhor o que se passa, não será a O arquipélago em chamas; recorrendo ao mais recente, Miguel Strogoff (1876), veremos as provações sofridas pelo herói onomástico na travessia dos cinco mil e quinhentos quilômetros de obstáculos entre os exércitos traidores do Czar, para entregar, na Sibéria, uma mensagem que o soberano lhe confiara. O inimigo mais difícil de vencer é sempre o traidor invisível. E há também outro romance, publicado dois anos depois pelo mesmo Júlio Verne, em 1878, uma pequena joia chamada Um capitão de quinze anos. Viram que depois de seu ato de bravura, o soldado raso Ernesto Nemescek foi promovido a capitão (p.208)? Com letras maiúsculas e tudo (p.159). Foi merecido! Neste último Júlio Verne, o jovem Dick Sand, também de apenas quinze anos de idade, teve que – devido à morte do capitão Hull e seus marinheiros, durante uma caça às baleias –, comandar o Pilgrim com a reduzida ajuda de cinco náufragos, e assim salvar a vida de seus companheiros de viagem e também a sua. Nemescek é, como Dick Sand e Miguel Strogoff, um exemplo de coragem e virtude. Mas não o são também João Boka e Chico Áts?

No capítulo nove, dedicado todo ele aos Autos da Sociedade do Betume, consta ainda o nome de dois heróis da história húngara, João Hunyadi e o arcebispo Pál Tomori, ambos envolvidos em batalhas com os turcos, batalhas estas que começaram com a queda de Constantiopla, pelos turcos Otomanos, em 1453. Três anos depois João Hunyadi recuperou Belgrado para o império Húngaro, embora tenha perdido a vida nesta batalha. A batalha de Mohács deu-se quase cem anos depois, em 1526, chefiada por Luis II da Hungria, contra Solimão, o Magnífico. Depois de uma curta vantagem, cercado pelo triplo de soldados, o Arcebispo Tomori perdeu a batalha e a vida.

Em comum entre estas batalhas e a dos meninos da rua Paulo está a estratégia. Desde o desenho da planta baixa, à página 135, que, aliás, está invertida (olhando o mapa da cidade, logo nos damos conta de que o portão que dá para a rua Paulo, a Pál utka, deve estar para cima), até a vitória de Nemecsek sobre Chico Áts, como um pequeno Davi sobre o gigante Golias, tudo obedece a uma ética e a uma lógica. Como disse o General João Boka, só poderemos combater [juntos] se formos todos amigos (p.134). Sem a confiança propiciada pela amizade, é difícil. E aos inimigos, antes de tudo, há que respeitar; é preciso saber como eles pensam e faz parte da defesa imaginar como será o ataque, e, se possível, até estruturar o ataque, pois esta é a melhor maneira de garantir a defesa. A cena em que Boka está no alto do barracão (p. 184), com o binóculo de teatro a espreitar o inimigo, lembrou-me de Aníbal Barca. Era a hora de comprovar se a estratégia que havia imaginado a ser utilizada por Chico Áts se confirmava. Boka era como um novo Cipião, e como tal estava à espera de Aníbal, este a quem Theodore Ayrault Dodge – um importante historiador militar –, chamou de pai da estratégia.8

Paulo Rónai, no seu prefácio, lembra de alguns romances transformados em leituras para adolescentes, o Don Quixote, de Cervantes, As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, Robison Crusoe, de Daniel Defoe, David Copperfield, de Charles Dickens, e Os miseráveis, de Vitor Hugo. Nesta direção, poderia incluir ainda o trabalho do casal Charles e Mary Lamb que, literalmente, adaptaram Shakespeare para a juventude. Mas a inclusão de Os miseráveis não é por acaso, ele conta a história de Jean Valjean, o convicto que depois de não censurado por reincidir no crime, compreende a importância do gesto e se regenera. A redenção está sempre presente. David Copperfield, considerado uma autobiografia de Dickens, mostra a infância e juventude de um menino da classe média baixa, parecida com a dos meninos da rua Paulo. Mas a semelhança para aí. Para seguir seus estudos, o jovem Charles/David precisou trabalhar em uma fábrica, necessidade que não aparece nos meninos de Molnár. E o encontro da segurança e da felicidade na Austrália – por parte de Copperfield – pode ser comparada, de certo modo com a redenção cristã oferecida a todos com a morte de Nemecsek, um novo Aquiles apreferir uma vida breve porém gloriosa.

Mas a verdade é que as aventuras destes meninos húngaros, comparados com outros, o menos que se pode dizer é que, enfim, são bem comportados. Se desobedecem algumas regras, pelo menos vão ao colégio e se preocupam com os estudos de latim. Em outro romance da mesma época, publicado um pouco antes, em 1876, por Mark Twain – As aventuras de Tom Sawyer –, a coisa era muito pior. A começar pelo fato de que os principais personagens não iam à escola. Em As aventuras de Huckleberry Finn, do mesmo autor, as coisas não são melhores, se a violência é um pouco menor que em Tom Sawyer, encontramos aí treze cadáveres. Em Tom Sawyer, entre outras brutalidades, um personagem morre de fome, aprisionado em uma caverna, depois de ter comido todos os morcegos e cotos de vela que conseguiu encontrar. Um horror! Outro personagem é assassinado durante a violação de uma sepultura. Aconteceu certa noite, quando os dois amigos, Tom e Huck vão velar um gato morto sobre um tumulo e descobrem que o mesmo está sendo violado pelo médico da pequena cidade em que viviam à margem do rio Mississipi. Quando Injun Joe e Muff Potter, os malandros que ajudavam o doutor, querem chantageá-lo, começa uma discussão e logo o esfaqueiam com o canivete de Potter. Depois, quando Potter é acusado, Joe testemunha contra ele. Esta sim, uma traição sem arrependimentos. Mas é diferente da traição na história de Molnár. Em Mark Twain trata-se de uma cena assistida, e quando Tom Sawyer se envolve nela, é como testemunha para dizer a verdade sobre o crime do outro. Em Molnár cada um é sempre responsável por sua própria consciência.

Mas o que tem em comum entre todas estas histórias, é o que não está mencionado em nenhuma delas, a rigor nem no Don Quixote que tudo faz por amor a Doña Dulcinea Del Toboso: o sexo. A aparição da irmã de Csele é breve demais. Embora sua função de costureira represente um papel muito frequente nos romances francês e alemão do século XIX, seria forçar muito, aí, uma presença sexual. Alguns anos antes, contudo, na Alemanha, em 1891, Frank Wedekind havia publicado o seu Despertar da Primavera. Lembram que o dia da guerra na rua Paulo era um lindo dia de primavera? Pois, para Wedekind, a primavera era mesmo a adolescência, momento do despertar da sexualidade. E o seu resultado, naquela peça, funestos: opressão familiar, abortos que matam mãe e feto, suicídio e, enfim, muita ignorância! Como vemos acontecer tantas vezes, quando a sexualidade irrompe, as relações se rompem!

O tempora, o mores! Cerca de dez anos atrás fui convidado a escrever o prefácio para o romance de uma menina de doze anos. Sua personagem, não muito mais velha do que a autora, começava logo matando aulas para namorar, e terminava com uma noite de amor, em Salvador; sem meias palavras!

Hoje, se tudo parece mais claro, e o sexo mais fácil, nem por isso as relações são menos difíceis!

Muito obrigado.
1. CESAR, Ana Cristina, Crítica e tradução. São Paulo, Ática e Instituto Moreira Salles, 1999, p.413.
2. PAZ, Octavio, Alternating current. Londres, Arcade Publishing, 1991, p. 86.

3. No romance, pela está grafada sem acento, com uma nota de Nelson Asher de que a pronúncia é com acento (p.53). Antes acentuadas, ambas perderam o acento na nova ortografia.
4. A invenção foi comprada pelo Barão Marcel Bich. A produção de canetas tinteiro começou um pouco antes, por volta de 1880, com a inclusão do irídio nas penas, para evitar a corrosão. Em 1884, Lewis E. Vaterman registrou a patente da caneta tinteiro.
5. I Samuel, 17.

6. As cores da bandeira dos meninos da rua Paulo são as mesmas da bandeira da Hungria.
7. Sigmund Freud, A psicopatologia da vida cotidiana [1901), Rio de Janeiro, Imago, Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, vol V, 1976, p.113.
8. Dodge, Theodore Ayrault. Hannibal: A History of the Art of War Among the Carthaginians and Romans Down to the Battle of Pydna. 168 BC. Nova Iorque: Adamant Media Corporation, 2001. pp.714.

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