Redigir? Não é difícil

 

  Uma vez, perguntaram a Luis Fernando Veríssimo o que era inspiração e ele deu a melhor resposta que conheço: “Inspiração é o prazo”. Ou seja, se você precisa entregar o texto a tal dia, tal hora, ele acaba sendo feito. Isso que se aplica a cronista com prazo de entrega em jornais e revistas também vale para os que precisam fazer uma redação para o vestibular, escola, seja o que for.

  Sempre me perguntam: existem dicas, existem atalhos? Existem. Façamos uma listinha.

  1. Se houver chance de saber os assuntos que farão parte da pauta, pesquise sobre eles, abasteça-se. Livros enciclopédias são essências. Quanto melhor dominar um assunto, mais fácil escreverá sobre ele.
  2. Escolha o ponto de vista. Primeira pessoa ou terceira? A primeira pessoa traz o leitor para dentro do texto, porém o narrador deve participar de todas as situações para poder contar. Consegue fazer isso? A terceira pessoa traz facilidades, você conta como se fosse alguém de fora.
  3. Deve-se ter uma pegada inicial de impacto, para que o leitor fique preso ao texto até o fim.
  4. Ao escrever pense que nossa língua é a portuguesa e procure palavras com melhor sonoridade, vibração. Evite a repetição de palavras, busque sinônimos.
  5. Frases curtas levam a menos erros. Uma frase longa joga o leitor dentro de um labirinto e acaba sendo uma armadilha para você.
  6. Use a ordem direta. Para empregar a indireta, tem de ser mestre na redação. Não tente malabarismos – o simples diz tudo.
  7. Não abuse de adjetivos, eles melam o texto. Seja enxuto, direto, econômico nas frases. Escrever é a arte de cortar, dizia o escritor norte-americano Ernest Hemingway.
  8. Evite o uso de “lhe”, porque destrói a sonoridade do texto.
  9. Não utilize elementos desnecessários para “enfeitar”. Dizia Erico Veríssimo que, se você criar qualquer objetivo ou paisagem no começo de um texto, eles devem ter umas função mais à frente.
  10. Deve-se ter um final que surpreenda, provoque espanto. Uma revelação qualquer, uma virada na narrativa, mas que esteja dentro do que você pretendeu.
  11. Tenha sempre um caderninho à mão e anote tudo, capture assuntos, para o caso de uma redação com tema livre. A vida em torno de nós é cheia de curiosidades, absurdos. Fique de olho.
  12. Já pensou em “treinar” uma redação? Olhar para uma coisa e descrevê-la. Ler uma noticia de jornal e comentá-la. Ouvir uma conversa e reproduzi-la. Escrever é a arte da prática. Treinando se pega o jeito.
  13. Leia com atenção cronistas como Rubem Braga ou Fernando Sabino – ainda os melhores. Veja como eles constroem o texto.
  14. Force a memória. Procure recordações, fatos de sua vida. De repente um deles pode ser usado no texto, enriquecendo, dando sabor.
  15. A arte de imaginar, de inventar, de fantasiar é bem-vinda, traz poesia, pega o leitor, domina-o. Mais do que isso, só se eu fizer a redação para você.

 

Por Ignácio de Loyola Brandão*

 

*Membro da Academia Paulista de Letras e um dos autores mais lidos entre os jovens, Ignácio de Loyola Brandão, 70 anos, publicou 31 livros, entre romances, contos, crônicas, volumes de viagem, infantis e uma peça teatral. Escreve semanalmente no jornal O Estado de S. Paulo e é redator especial da revista Vogue

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